BLOG FAMÍLIA 3 JANEIRO DE 2015

Meu pai… meu herói!!!

Meu pai… meu herói!!!

Meu pai, meu herói!

Minha foto de capa é um misto de dor e saudade. Um dia, minha mãe, Nair Rodrigues de Souza, me perguntou por que meu pai era um herói para mim. Fiquei sem palavras. Passei muito tempo pensando em cada detalhe da minha vida com ele e descobri que ele se tornou meu herói quando eu tinha apenas quatro anos: ele me registrou e me ensinou a ler e escrever.

Aliás, sabe qual foi a primeira palavra que ele me ensinou? “Amor.” Lembro como se fosse hoje. Eu tinha quase cinco anos, meus irmãos Leslie Lima e Dawson Lima já iam para a escola, e eu queria estudar de qualquer jeito. Então ele me deu uma mochila, que eu arrastava para todo lado.

Aos seis anos, mesmo sem ter idade, ele me levou para o Colégio Auxiliadora. Lembro da Irmã Clair dizendo que eu precisava me comportar, senão não poderia ficar. Lá conheci minhas primeiras amiguinhas: Thais Bortolotto Melchioretto, Abail Melchioretto Lago, Suzy Santos, Betty Feier Larre e outras.

Há muita história nesse meio-tempo. Meu pai passava horas comigo, ajudando nas tarefas e me ensinando a desenhar. Foi ele quem me ensinou a pintar e desenhar! Fazia riscos no papel para que eu completasse o desenho e me incentivava a colorir. Foi assim que o desenho passou a fazer parte da minha vida. Que saudade do meu pai!

Em 1987, quando eu havia passado em Pintura na Belas Artes, meu pai sofreu um acidente de avião e ficou confinado a uma cadeira de rodas por quase 11 anos. A cada dia, meu herói vencia e me ensinava a lutar pela vida. Não me lembro de vê-lo reclamar de dor ou ter preguiça. Mesmo na cadeira de rodas, trabalhava todos os dias.

Lembro dele acordando de madrugada para trabalhar e das viagens em que eu ia com ele. Lembro de, mesmo depois de adulta, ele servir meu prato e me chamar de “filhinha”. Ele me ligava todos os dias, me ajudava com a documentação da academia e era meu sócio. No dia de assinarmos o contrato da sociedade, entreguei o documento para ele ler. Ele me disse:

— Filhinha, eu não preciso ler para assinar o que vem de você. Eu confio em você!

Dez anos depois, em abril de 1997, sofri um acidente de carro. Eu estava no hospital, e meu pai, ao meu lado, clamava ao Senhor Deus de Israel para que me poupasse e permitisse que eu voltasse a andar e recuperasse meus movimentos. Ele já era convertido desde o acidente de avião, mas eu ainda não conhecia Jesus. Conhecia apenas o ser humano histórico, não Cristo Jesus, o Filho unigênito de Deus.

Ali, ao meu lado, ele conversou com Deus. Só hoje compreendo o poder da intercessão. Ele disse mais ou menos assim:

— Pai eterno, eu mereço estar confinado nesta cadeira. Errei com meus filhos, destruí minha família. Mas o que a minha filhinha fez? Tem misericórdia da vida dela e permite que ela possa andar!

Eu ouvia tudo. Foram palavras poderosas. Tive uma grande experiência com Deus. Em dezembro, após muita luta, fisioterapia, fé e a força do meu pai, que não me permitia sequer reclamar, lá estava eu de pé!

A foto da capa foi a última que tiramos juntos, no dia 30 de novembro de 1997. Mas preciso contar o que aconteceu naquela semana.

Na segunda-feira, 24 de novembro, meu pai me ligou e pediu que eu antecipasse para o domingo, dia 30, a festa de quatro anos da Luciana Leffer. O aniversário dela era em 14 de dezembro. Eu disse que seria impossível: aquela era a semana que antecedia o festival da Cia. de Dança e Arte Jenifer Lima. Mas ele insistiu tanto! Disse que queria estar conosco nem que fosse pela última vez. Briguei com ele, disse que viveria por muito tempo e que parasse com aquela bobeira.

Mesmo com toda a correria da academia, fiz a festa antes do planejado. Na terça-feira, ele passou muito mal. No domingo, dia 30, estávamos juntos comemorando a “festinha da Lú”, como ele tanto queria.

Depois dos parabéns, ele me pediu uma foto. Estranhei, porque geralmente sou eu quem insiste para tirar fotos. Minha família e meus amigos dizem até que sou meio insuportável com isso! Não lembro quem tirou a foto. Só sei que, logo depois, ele me pediu:

— Filhinha, me leva para o hospital. Eu não me sinto nada bem.

E lá fomos nós. Meu padrasto, Otacilio Souza, dirigia; minha mãe estava ao lado dele; atrás estávamos eu, meu ex-marido Eduardo Leffer e meu pai. No caminho, meu pai pediu perdão à minha mãe e agradeceu ao meu padrasto, meu “pai com aço”, por ter cuidado dos seus filhos.

Foi uma semana atribulada, mas consegui visitá-lo todos os dias. O festival, VI Vem Dançar Conosco — Nessa Noite de Natal, aconteceria nos dias 5, 6 e 7 de dezembro de 1997.

No domingo, dia 7, eu estava na academia fazendo coque nas alunas. Eram cerca de 16h, e o espetáculo começaria às 19h30. Recebi um telefonema do hospital: o médico pediu que reuníssemos a família. Larguei tudo e fui até lá. Quando encontrei meu pai, ele me disse:

— Filhinha, você precisa me permitir partir. Só estou aqui ainda por você, e eu não aguento mais.

Eu respondi:

— Pai, eu te amo tanto! E permito que você parta.

Mal sabia o quanto seria difícil viver sem ele. Então ele disse:

— Você é a única pessoa neste mundo que não precisa me dizer isso. Mas eu preciso partir. Meu corpo não aguenta mais.

Eu o abracei com todo o meu amor e fui embora. O médico disse que eu deveria cancelar o espetáculo. Eu deveria ter escutado. A dor era tão intensa que eu estava cega e, no fundo do coração, ainda achava que meu pai ficaria comigo por mais tempo.

O festival aconteceu. Poucas horas depois, um pouco antes da meia-noite, meu pai se foi.

Há tanta coisa que não falei, tantos beijos e abraços que não lhe dei, tantas histórias que não ouvi. Tanta coisa da minha vida que ele não pôde acompanhar: minha formatura em Direito, meu casamento com Charles Jung Potolann, o nascimento da Juliana Lima, o sonho de ter uma miss na família…

Ele também não me viu ser batizada nas águas e aceitar Jesus. Não segurou minha mão durante as dolorosas quimioterapias no enfrentamento do câncer. Sei que, se estivesse aqui, estaria ao meu lado.

Te amo, pai. Tenho tanta coisa para te dizer quando nos reencontrarmos na eternidade. Meu pai, meu herói!

Espero que agora, mãe, você possa compreender por que ele é meu herói.